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NOTÍCIAS DO JORNAL DA CASA DE PASSAGEM
 
História de Vida - Ana Vasconcelos
 

Ana Maria Pacheco de Vasconcelos nasceu no dia 22 de agosto de 1944, natural de Timbaúba, filha de Antônio de Moraes Vasconcelos e Maria Martha Pacheco de Vasconcelos. Família de quatro irmãs: Ana Maria, Maria Cristina, Maria das Graças e Maria Ângela, viveu até 13 anos de idade em Timbaúba, quando veio morar e estudar em Recife.

Ana Vasconcelos sempre foi uma pessoa questionadora e ousada. Não aceitava os modelos tradicionais da época, buscava sempre a quebra desses padrões. Cursou Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro e concluiu na Faculdade de Direito do Recife. Teve vários amigos de turma, um deles foi Tancredo Neves Filho, conhecido como Tancredinho e outro foi Gustavo Krause. Após o término, já estava atuando em um escritório de advocacia e trabalhou com o grande advogado José Nabuco Filho. Participou ativamente de movimentos sociais na década de 80 – lutando pela defesa de crianças e adolescentes excluídos.

Em 1983, foi convidada a trabalhar na Fundação Joaquim Nabuco, de lá, ela saiu para a URB/Recife. Em 1986, começou a trabalhar como vice-presidente na Legião Assistencial, órgão ligado à Prefeitura Municipal do Recife. Foi nesse espaço onde ela entrou, pela primeira vez, em contato com os que eram denominados “meninos de rua”. Um dos espaços de trabalho da Legião era a “Casa de Integração do Menor Trabalhador”. Ela questionava o motivo que esse local não recebia meninas. Ainda em 1986, decidiu sair em busca das meninas de rua da cidade do Recife. Começou a fazer grupos com elas nas ruas, buscando conhecer melhor essa realidade.

Diante dessa problemática, em 1987, foi apresentada a proposta da criação da Casa de Passagem, em plenária, à antiga Febem, em Recife, junto com outras instituições governamentais e não-governamentais, buscando convencer a sociedade da necessidade de se realizar um atendimento específico as meninas, adolescentes e suas famílias que viviam nas ruas. Eram meninas que viviam esmolando, sendo exploradas sexualmente, roubando, precocemente mulheres, destruídas em sua identidade, destituídas de respeito e de referenciais para seu desenvolvimento humano.

Em 1988, começou a elaborar projetos que pudessem ajudar essas meninas na luta pela sobrevivência e no dia 2 de janeiro de 1989, fundou, finalmente, o Centro Brasileiro da Criança e do Adolescente – Casa de Passagem. “Várias meninas diziam que a rua era uma passagem para o inferno. Nós decidimos construiu a passagem para o céu, ou seja, a passagem para o autoconhecimento, a passagem para nós mesmas, a passagem para sermos cidadãs, e aí, surgiu à Casa de Passagem. A passagem para a vida”, dizia Ana. As meninas começaram a chegar sujas, famintas, feridas, apresentando no corpo as dores das noites nas ruas. A equipe da Casa procurava oferecer um espaço de fala e de escuta, onde se propõe o respeito por si mesmas e pelo coletivo. O trabalho na questão de limites foi fundamental para que as meninas internalizassem o respeito pelas educadoras e por si próprias.

Foi iniciado, paralelo a isso, um trabalho de alfabetização e inserção delas na escola, foi criado um espaço pequeno para cozinha, onde elas preparavam sua comida, passaram a ser encaminhadas aos postos de saúde, a continuar nas terapias em grupo e participar de várias atividades lúdicas.

Ana Vasconcelos via que as ações estavam dando resultado e que precisaria de recursos financeiros. Ela passou a divulgar o trabalho a nível nacional e internacional, sendo convidada para falar sobre a iniciativa em vários países. Jornais, revistas e TVs da Inglaterra, França, Alemanha, Itália, Holanda, entre outros, deram destaques ao trabalho de Ana. A partir daí, a Casa passou ter parcerias com as cooperações internacionais, além de apoio governamental. Os projetos foram sendo aprovados e a Casa de Passagem passou a trabalhar não apenas com as chamadas “meninas de rua”, mas com crianças e adolescentes de ambos os sexos em situação de alto risco social e que viviam em comunidades periféricas. O trabalho foi ampliando ainda mais, quando em 1990, foi implantado o Programa Iniciação ao Trabalho para profissionalizar o público e os inserir no mercado de trabalho e, em 1994, o Programa Comunidade e Cidadania, por ela perceber que o público atendido precisava ser informado dentro de sua comunidade para atuar como multiplicadores com outros adolescentes. Esses programas se somaram ao Passagem para a Vida, cujo o público permaneceu o inicial.

Ana Vasconcelos era uma pessoa visionária e nunca desistia do que acreditava. Ela sempre teve uma visão humana em relação às meninas que tinham seus direitos violados e que sempre estava atuando na defesa e garantindo os direitos humanos dessas mulheres / meninas. Ela nos deixa um legado de amor ao próximo, algo difícil de perceber no mundo atual, no qual vemos a sociedade apenas interessada no lucro.

Ana Maria Pacheco de Vasconcelos deixa uma filha, Ana Paula, de 21 anos.

 
 
 
 
 
 

 

 

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